A anamnese, já conceituada
anteriormente, como qualquer outro tipo
de entrevista possui formas ou técnicas corretas de ser aplicada. O
conhecimento das técnicas, permite o profissional aproveitar ao máximo o tempo
disponível para o atendimento sem qualquer tipo de desperdício, produzindo um
diagnóstico seguro e um tratamento correto, além de, não menos importante,
creditar confiança ao paciente devido a segurança característica de uma boa consulta
.
Nos últimos tempos
observamos cada vez mais que os médicos conversam cada vez menos com seus
pacientes. No entanto, 60% dos diagnósticos são feitos pela anamnese, 30% pelo
exame físico e 10% pelos exames complementares. Este paradoxo provavelmente ocorre
porque de forma errônea, acha-se que os exames complementares resolverão os
problemas de comunicação entre o médico e o paciente, mas este tipo de prática,
além de ser pouco humanizada, desencadeia um desgaste muito grande do paciente,
pois não é incomum que quanto mais exames um paciente realize, mais chances de
resultados falsos positivos ocorram,aumentando as expectativas do paciente e
não raramente provocando até mesmo doenças psíquicas ou orgânicas no mesmo.
Portanto, valorização da anamnese é algo imprescindível, e embora seja laboriosa,
não requer custo adicional a prática de saúde, e nos possibilita sua aplicação
em qualquer lugar onde exista uma relação médico-paciente.
Decorrido toda a questão
introdutória da Anamnese, será então apresentada uma conceituação mais técnica
dos seus princípios básicos, tendo em foco detalhes que muitas vezes passam
desapercebidos.
1- O Que deve ser feito
para execução de uma boa Anamnese?
A observação é parte valiosa
de qualquer entrevista médica. Esta é feita ao longo de toda a entrevista. Dificuldades
motoras ou dificuldades de marcha, por exemplo, podem traduzir seqüelas de cirurgias,
acidentes vasculares encefálicos, doenças neurológicas degenerativas. Já dificuldades
na linguagem, memória e orientação podem traduzir demência. Ou seja, mesmo que
ainda não se tenha dado início à entrevista, ou esta já esteja acontecendo,
pistas diagnósticas podem surgir pelo simples fato de obser var o paciente,
isto facilitará a interpretação dos dados coletados e provavelmente encurtará o
caminho para o diagnóstico.
A observação, no entanto é
recíproca. O paciente também observa o profissional, portanto o mesmo deve
prezar uma postura apropriada frente ao paciente, isto também é conhecido como
comunicação não verbal. Consciente e inconscientemente recebemos e enviamos
mensagens através de linguagem corporal. Sentimentos e propósitos são melhor transmitidos
por expressão facial e postura. Ansiedade, tédio, ira, depressão e medo são emoções
geralmente comunicada s por mensagens não verbais. Pode-se desenvolver consciência
para perceber e interpretar adequadamente grande quantidade de informações. É
necessário estar alerta para captação de expressões ou linguagem corporal que transmitam
mensagens diferentes daquela que está sendo verbalizada.
Vejamos como é
possivel ao profissional auxiliar a comunicação com os pacientes nos diferentes
setores, sem que o mesmo, ou o paciente falem uma palavra:
a) Postura: A comunicação
é mais fácil ao médico quando este encontra-se sentado ou em pé
confortavelmente, não tenso. Não demonstrar pressa é fundamental pois cede ao
paciente uma ideia de maior liberdade para falar. Quando possível, situar-se no
mesmo plano do paciente, a uma distancia culturalmente aceitável e não ter luz direta
atrás do paciente ou de você.
b) Aparência Geral: Um
avental médico pode ou não auxiliar a comunicação. Considere o impacto de
outros símbolos médicos como: estetoscópio, martelo de reflexos.
c) Expressão Facial: O contato
visual deve ser mantido tanto quanto possível, de uma maneira relaxada, sem
gerar um ar de intimidação. Observar os olhos do paciente e as expressões
faciais do mesmo de acordo com a progressão da entrevista é essencial.
d) Ambiente: Distrações
com ruídos, rádio, TV, telefones e celulares, limitam a comunicação. A
privacidade é essencial.
Os diferentes tipos de
perguntas tem por finalidade extrair do paciente informações claras sobre suas
queixas de forma a facilitar o raciocínio clínico para o diagnóstico. São
geralmente 5 os tipos de perguntas:
- Abertas
- Focadas (ou semi-abertas)
- Fechadas
- Dirigidas
-Compostas
Perguntas abertas: São as
que devem iniciar a conversa. São perguntas com ampla liberdade de resposta. Na
avaliação do problema atual, a abertura deverá ser feita com perguntas do tipo “Qual
é o motivo de sua consulta?” “Em que posso ajudá-lo?” “Fale-me sobre sua
doença” “O que o trouxe à consulta?” “Por quê está no hospital?”
Perguntas focadas: O
entrevistador define a área a ser questionada, mas deixa considerável liberdade
de resposta. Ex.: “descreva a sua dor torácica” Neste caso você definiu duas
áreas: um sintoma – a dor – e uma região – o tórax. Perguntas focadas também
podem incluir áreas que não são sintomas, como por exemplo,“que você faz para
viver?”
Perguntas fechadas: São
aquelas que podem ser respondidas por um “sim” ou “não”, ou um número, como idade,
número de filhos, vezes ao dia, etc. A quantidade de informação é pequena, mas
pode ser importante. Ex. “Até quanto chegou sua pressão arterial?”
Perguntas dirigidas: Devem
ser evitadas por serem indutoras da resposta: “Você está se sentindo melhor,
hoje, não está?” “Você emagreceu, não emagreceu?”.
Perguntas compostas: Constituem erro comum nas entrevistas médicas. Ocorrem quando duas ou mais
perguntas são feitas sem dar tempo ao paciente para que responda a primeira
delas. “Conte-me sobre sua dor no peito, se você fuma e se algum membro de sua família
já teve alguma doença significativa”
Certamente a maior parte
das informações virá das perguntas abertas, de maneira que procure iniciar a entrevista
com perguntas abertas, utilizando a seguir as perguntas focadas e por fim as
perguntas fechadas. Com estes tipos de perguntas podem ser realizadas
entrevistas médicas abrangendo qualquer área médica. No entanto, no caso de
pacientes prolixos, com respostas vagas e confusas, as perguntas mais focadas
ou fechadas podem trazer maiores informações. Por outro lado, no caso de
pacientes críticos ou agudamente enfermos, onde as tomadas de decisões devem
ser rápidas, as perguntas dirigidas podem ter seu lugar. A informação deve ser
organizada e anotada de maneira que esteja disponível tanto agora como para o
futuro. As anotações médicas devem ser ordenadas, claras, concisas, acuradas e completas,
como uma história qualquer, ou seja, com começo, meio e fim, para que possa ser
compreensível mesmo após muito tempo do contato com o indivíduo.
2 - Os Elementos da
Anamnese
Existe uma padrão mundialmente
conhecido para a condução daentrevista para a Anamnese, que é dividido da
seguinte forma:
Identificação: Como o
próprio nome diz, aqui se tenta identificar o paciente de maneira ampla não só a
respeito do seu nome, idade e sexo, mas também a sua cor, naturalidade, estado
civil, residência, religião e profissão. Os dados de identificação também serão úteis
no raciocínio clínico, assim por exemplo, imaginem a seguinte situação: um
paciente de 19 anos com icterícia e outro com 79 com icterícia. A probabilidade
do primeiro ter hepatite e do segundo um ter um tumor de cabeça de pâncreas são
altas somente considerando-se o fator idade. Assim por diante poderíamos
discorrer sobre inúmeros exemplos como esse, porém não é esse nosso objetivo
neste roteiro de estudo.
Queixa principal (QP): Em
poucas palavras, o profissional registra a queixa principal, o motivo que levou
o paciente a procurar ajuda.
História
da doença atual (HDA): No histórico da doença atual é registrado tudo que se
relaciona quanto à doença atual: sintomatologia, época de início, história da
evolução da doença, entre outros. A clássica tríade: Quando, como e onde isto é quando começou, onde começou e
como começou. Em caso de dor, deve-se caracterizá-la por completo.
História
médica pregressa ou História patológica pregressa (HMP ou HPP):
Adquire-se informações sobre toda a história médica do paciente, mesmo das
condições que não estejam relacionadas com a doença atual.
Histórico
familiar (HF): Neste histórico é perguntado ao paciente sobre sua família e
suas condições de trabalho e vida. Procura-se alguma relação de hereditariedade
das doenças.
História
pessoal (fisiológica) e história social: Procura-se a informação sobre
a ocupação do paciente,como: onde trabalha, onde reside, se é tabagista, alcoolista ou faz uso de outras drogas. Se viajou recentemente, se
possui animais de estimação (para se determinar a exposição a agentes patogênicos ambientais). Suas atividades
recreativas, se faz uso de algum tipo de medicamentos (inclusive os da medicina alternativa),pois estas
informações são muito valiosas para o médico levantar hipóteses de diagnóstico.
Revisão
de sistemas: Esta revisão, também conhecida como interrogatório
sintomatológico, anamnese especial/específica ou Interrogatório Sobre os
Diversos Aparelhos (ISDA), consiste num interrogatório de todos os sistemas do
paciente, permitindo ao médico levantar hipóteses de diagnósticos
Passada essa definição
mais técnica, assim como a definição de um roteiro para uma condução mais segura
da Anamnese, seguimos nas próximas postagens para a outra etapa do exame clínico,
o exame físico, para então retornarmos ao enfoque da problemática principal desse
trabalho, sem limitar-se somente a um manual de conduta, que já é bastante
trabalhado nos livros já existentes de Semiologia médica.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirO conhecimento do problema e do histórico do paciente são partes fundamentais para um bom diagnóstico, pois a partir dele podemos estabelecer vínculos de confiança, identificar alterações biológicas, psicológicas e sociais. Fatores estes que podem ter propiciado um quadro favorável para o desenvolvimento do processo patológico que levou o paciente até o consultório. Portanto, é importante nos ater as técnicas e "dicas" apresentadas no post para um bom exame clínico.
ResponderExcluirEm tempos de tanta tecnologia disponível na área médica, algumas pessoas se esquecem da importância do exame clínico para o diagnóstico e tratamento de doenças. A anamnese é muito importante como uma etapa do exame clínico, pois a partir dela inicia-se uma história que será resgatada em consultas posteriores. Já os exames complementares, tecnológicos ou não, como o próprio nome já diz, complementam o diagnóstico e por isso devem ser solicitados apenas após o exame clínico.
ResponderExcluirNa maioria das doenças a anamnese continua sendo a parte mais importante, dentro da avaliação, para se chegar a um diagnóstico. Ela sofre algumas variantes de acordo com o tipo de paciente. Em crianças a entrevista é realizada com a mãe, mas a fala da criança não deixa de ter sua importância clínica. Com adolescentes a anamnese é feita em dois tempos: num primeiro momento se faz com a família; e no segundo momento se faz apenas com o adolescente. É importante que o profissional garanta que haverá sigilo das informações às duas partes a menos que a comunicação de informação de uma a outra parte seja realmente muito importante para o tratamento. Com adultos embora haja uma maneira mais uniforme de se fazer a anamnese, mesmo assim sofre muitas modificações de acordo com a patol
ResponderExcluirA anamnese é o caminho fundamental que leva ao diagnóstico, que por sua vez levará à orientação da terapêutica. Durante a anamnese,devemos estar pacientes , pormenorizar cada aspecto com exatidão. A cefaléia deve ser caracterizada quanto a ocasião e modo de início, localização, caráter, duração, intensidade, irradiação, fatores de piora, melhora, desencadeantes e acompanhantes , história familiar, outras patologias associadas . Se o paciente tiver dois ou mais tipos de cefaléia, caracterizar cada uma delas e se houver agravamento, caracterizar muito bem esse aspecto.
ResponderExcluirhttp://www.brasilmedicina.com.br/especial/bmf_t8s3s10.asp
O comentário desse médico sobre a anamnese define a sua grande importância na detecção de doenças. Uma dor de cabeça pode ser indicativo de muitas coisas e uma entrevista bem feita vai indicar que tipo de dor essa pessoa ta tendo, baseada nos seus hábitos, local da dor etc. E um mundo onde a tecnologia faz-se suprema, a anamnese e o exame clínico ainda são a base de um bom diagnóstico.
Muito bom. A Anamnese é fundamental. As técnicas descritas no post descrevem muito bem. Mas aprender e apreender essas técnicas não é fácil. Não estamos acostumados a ser observadores. Um bom médico precisa aprender a ouvir o que foi dito e o que não foi dito. Deve ter a prática de usar essas técnicas sem pensar nelas, de tanta prática. Seria muito bom que vcs desde já fossem vestindo essas técnicas de modo que a fizessem, de forma tão natural, que nem precisassem pensar nelas como técnicas. Pensem em como fazer isso.
ResponderExcluirAbraços.
Através da anamnese social, o profissional busca identificar a realidade socioeconômica e sanitária destes pacientes, a fim de desvendar as questões sociais que possam impactar ou paralisar o tratamento, reforçando a importância da participação familiar neste processo e trabalhando os determinantes sociais da saúde dos pacientes, familiares e acompanhantes.
ResponderExcluirIsso aí Sandino... foi exatamente essa a minha ponderação nos primeiro comentário do seu post. Se um médico, em sua dedicação de tempo e disponibilidade e de responsabilidade para com o paciente, se dispuser a realizar uma anamnese detalhada como a que você habilmente sugeriu, muitos exames poderiam ser simplesmente dispensados, ou ser solicitados unicamente como confirmação de disgnóstico. Deste modo, ainda que não haja bioquímica nesses procedimentos, existe um leque de exames fisiológicos realizados pelo médico que obviamente apontam para um diagnóstico bem sucedido.
ResponderExcluirAchei muito interessante a postagem sobre anamnese. Conhecia algo sobre, porém, não sabia que ela é tão importante (até 80% dos diagnósticos são feitos pela anamnese). Como você bem disse nas últimas duas postagens, a anamnese que deriva de uma palavra grega e quer dizer "recordação" é uma história do paciente, uma conversa tranquila, onde há aproximação do médico com o paciente e o aumento da confiança deste no profissional. É importante que já desenvolvamos tais características (saber fazer uma boa anamnese por exemplo) desde cedo, para conforme formos aprendendo outras coisas no curso de medicina, saibamos como utilizar esses conhecimentos de uma forma humanitária e eficaz e que ainda facilite a relação com nossos futuros pacientes.
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